Desde milênios, desde que inventou a agricultura - um passo muito sério e talvez fatal na história da evolução orgânica - o homem vem enfrentando os problemas das enfermidades e pragas, ou parasitas, das plantas e animais domésticos. Para citar apenas um caso extremo, basta lembrar a grande fome na Irlanda no séc. XVIII, quando a Phytophtera acabou com as lavouras de batata, causando a morte por inanição de uma quarta parte da população do país e obrigando outra quarta parte a emigrar. A população da Irlanda ficou reduzida à metade. Em menor escala, quem, entre os que apreciam o seu jardim, ainda não se incomodou com a saúva, pulgões e lesmas ou com enfermidades criptogâmicas?
Hoje, além de uma maquinaria cada dia mais sofisticada, o agricultor moderno, para resolver seus problemas, tem à sua disposição os adubos químicos e todo um arsenal de venenos químicos os mais diversos, potentes e persistentes, os assim chamados produtos fitosanitários, pesticidas, defensivos ou corretivos: inseticidas, acarecidas, nematicidas, rodenticidas, molusquicidas, repelentes, fumigantes, desinfetantes, fungicidas, antibióticos, herbicidas, defoliantes, alguicidas e alguns mais. Cada uma destas substâncias lhe é entregue em formulações sempre mais complexas em que, além dos ingredientes ativos, participa toda uma série de substâncias auxiliares: material inerte, solventes, condicionadores, detergentes, emulsificantes, colorantes, sinergistas e mais alguns.
Entretanto, quem observa a natureza intacta, quem observa um bosque virgem ou qualquer outro sistema natural: tundra, chaparral, savana, cerrado, caatinga, deserto ou banhadal, os lhanos da Venezuela ou os campos nativos do Rio Grande do Sul, um recife de corais em mares tropicais, um rio em plena selva, certas micro-comunidades bióticas como as comunidades epífitas de nossas velhas figueiras, as pequenas comunidades epílitas dos chapadões e paredões dos cerros e montanhas, ou as associações de organismos de uma rocha de praia de mar, assim como uma infinidade de outros sistemas terrestres ou aquáticos, quem observa tudo isto de olhos abertos, notará logo que em toda a parte estão presentes organismos que costumamos classificar de patogênicos ou de pragas e que, no entanto, são raríssimos os casos de catástrofes como as que podemos tantas vezes observar em nossas lavouras e jardins. Quando realmente sucedem estragos sérios, são sempre localizados e passageiros.
Acontece que a Natureza é incrivelmente complexa, enquanto que nós humanos, em nossos cultivos e criações, achamos que devemos simplifica-la ao máximo, estabelecendo sistemas ultra-simples. Numa lavoura de milho consideramos inço ou praga tudo aquilo que não é milho. A natureza costuma fazer o contrário. Nos sistemas naturais é enorme o número de espécies. Quem já observou de perto a selva amazônica, por exemplo, sabe que às vezes pode caminhar centenas de metros para rever uma determinada espécie, tantas são as espécies existentes.
O estudo dos sistemas naturais nos mostra que quanto mais complexo um sistema, quanto maior o número de espécies na comunidade, tanto mais estável; quanto mais simples, tanto mais vulnerável o sistema. A tundra é mais vulnerável que o bosque pluvial tropical, a comunidade marinha da costa da Islândia mais do que o grande recife da Austrália.
Naturalmente, devemos sempre abstrair dos estragos que sabe causar o homem. Contra o fogo e a terraplanagem não há defesa. Assim mesmo, se a Selva Amazônica fosse como as florestas canadenses, talvez já teria desaparecido há muito tempo.
Mas também os sistemas naturais relativamente simples, como a tundra, não apresentam problemas comparáveis aos que encontramos em nossa agricultura. Porque, apesar de relativamente simples, estes sistemas são incrivelmente velhos e todos os organismos ali presentes tiveram um tempo infinito para ajustar-se mutuamente em equilíbrios dinâmicos permanentes. As comunidades naturais são sempre estáveis, enquanto que nossos cultivos são quase sempre sistemas desequilibrados. Uma vez desaparecida a mão do homem, em mais ou menos tempo, desaparecem sem deixar vestígio.
Não somente os sistemas que o homem procura estabelecer são extremamente simples, comparados com a natureza intacta, mas também insistimos em transplantar organismos a condições muito diferentes das em que se originaram. A batata, em seu habitat natural, nos Andes, se adapta a um grande número de condições ambientais diferentes. Existe até uma variedade epífita, mas nenhuma destas formas nativas vive em condições que se comparam de longe com as de uma moderna lavoura de batatas, como as que se podem ver na Holanda, por exemplo.
Os geneticistas, quando selecionam as fabulosas variedades que hoje cultivamos, fazem uma seleção unilateral, simples. Visam o máximo de produção e um aspecto comercialmente atrativo, muitas vezes em detrimento da qualidade alimentícia, e mal tomam em conta os fatores ecológicos. Já na própria estação genética as linhas em seleção recebem doses maciças de adubos químicos e são submetidas a chuvas de pesticidas violentos. Já são selecionadas para condições artificiais.
Além disso muitas das pragas são também organismos introduzidos. Nas condições em que se encontram nas lavouras, faltam quase sempre seus inimigos naturais que os mantinham sob controle no habitat original.
Não é de admirar, portanto, que nossos sistemas extremamente simplificados sejam também muito vulneráveis, que surjam cada dia novas dificuldades, dificuldades que não observamos na Natureza intacta e que aumentam na mesma proporção em que "modernizamos" nossos cultivos.
Enquanto o agricultor ainda estava bastante próximo da Natureza, como era o caso nas agriculturas européias e asiáticas até poucas décadas atrás, ele mais ou menos se defendia sem ou com pouco adubo químico e praticamente não usava venenos no combate às pragas, mas conseguia, assim mesmo, obter rendimentos constantes, às vezes bastante altos, com plantas e animais relativamente sãos e de elevado valor nutritivo.
A medida, porém, que a agricultura se moderniza, com a mecanização que conduz à monocultura em vastas áreas, à introdução de variedades altamente produtivas, mas também altamente exigentes e sensíveis, e que os modernos métodos têm possibilitado ao agricultor alienar-se cada vez mais da Natureza, à medida que a indústria entrega ao agricultor sempre novos remédios especiais e fáceis, para cada problema real ou imaginário, que se faz agricultura em terras marginais que nunca deveriam ter sido desbravadas e aradas, que se elimina mão de obra pelo uso de herbicidas, que se eliminam os últimos arbustos e cercas vivas, os últimos refúgios de fauna e flora, à medida que avança toda essa artificialidade e dilapidação dos sistemas naturais equilibrados, os problemas das pragas e enfermidades se tornam necessariamente cada dia mais complicados e mais sérios.
Hoje uma grande lavoura de algodão no Texas ou no Egito, com os métodos atuais seria inimaginável sem fortes doses de adubos químicos e um número cada vez maior de tratamentos com sempre novos pesticidas. Um produtor de maçãs no Tirol ou em Marrocos chega a fazer até trinta e mais tratamentos por temporada.
Chegamos, assim, a uma situação de círculo vicioso: quanto mais química, mais pragas e, portanto, mais química. Situação esta muito do agrado das grandes empresas químicas.
Vejamos um caso concreto entre dezenas de casos parecidos: no Brasil ainda comemos laranja manchada. Nosso público ainda não reclama se na casca da laranja, que afinal não se come, aparecem algumas minúsculas cochonilhas. O homem comum, em geral, é cego para os aspectos biológicos e a grande maioria não vê nada. De fato, neste caso, as cochonilhas não fazem absolutamente mal nenhum. O dano é só no aspecto. Mas, nos países tecnologicamente desenvolvidos, com sistemas de comercialização em grande escala e super-competitivos, uma laranja assim não tem chance. No supermercado alemão ou americano as laranjas levam carimbo, são de aspecto impecável, umas como as outras. Um inseto, uma mancha, um arranhão e a laranja vai para o refugo. Na época da colheita, na Espanha ou na Itália, podem ver-se montanhas de laranjas, perfeitamente aptas para o consumo, apodrecendo ao lado da estrada. Trata-se de refugo. Na estante do supermercado a laranja mais parece saída de uma daquelas máquinas de extrusão de objetos de plástico do que proveniente de uma árvore que vive.
Para obter aquele fruto de aspecto impecável o cultivador nas Caraíbas ou na região do Mediterrâneo tem que usar inseticidas cada vez mais violentos, em aplicações sempre mais numerosas. Na África do Norte, contra a cochonilha, usaram inicialmente o Parathion. Este inseticida tem o que os técnicos chamam um"espectro amplo", quer dizer que não é nada seletivo, mata quase tudo (em Marrocos as autoridades até o têm usado para matar pardais. Fazem aplicações de avião, à tardinha, quando os pardais estão reunidos dentro das árvores, em sua costumeira algazarra, antes de dormir. Muito bom apiário desapareceu assim). Este poderoso inseticida controlava satisfatoriamente a cochonilha, mas, devido justamente a este espectro amplo, matou também um sem número de outros organismos, quase todos desconhecidos do agricultor. Entre eles os inimigos naturais dos pulgões e dos ácaros.
Antes do uso intensivo deste inseticida o ácaro e o pulgão ocorriam esporadicamente na região. Não chegavam a incomodar. Mas, com o desaparecimento de seus inimigos naturais, seguiram o exemplo do homem, tiveram sua explosão demográfica. Agora o agricultor, para combate-los, além dos produtos que já usava contra a cochonilha, usa mais um inseticida sistêmico e um acarecida. Três venenos violentos onde antes não era necessário nenhum.
Os predadores desaparecem e as pragas tornam-se sempre mais resistentes aos inseticidas, obrigando ao emprego de sempre novas substâncias em doses sempre maiores.
Não tivesse o consumidor dos grandes centros sido condicionado pelo comércio a só aceitar frutos de aspecto impecável, a produção seria mais barata, haveria menos desperdícios e o ambiente das fazendas, a água dos rios, lagos e mares, a natureza em geral estariam menos poluídos, nossa saúde estaria mais protegida.
A química levou a agricultura a uma situação semelhante de pessoa drogada. O drogado começa com doses pequenas que lhe proporcionam imenso prazer. Acaba tomando sempre mais, com efeito sempre menos satisfatório, até o desastre final.
Os próprios adubos químicos já descandeiam um ciclo vicioso deste tipo. As primeiras doses de azoto produzem efeito espetacular. Mas o agricultor acaba usando sempre mais para manter o mesmo nível de colheita. A micro-flora e fauna do solo, assim como sua estrutura, acabam degradando-se e desaparecem. Perde-se a capacidade original de fixação do azoto no ar. Alcançam-se então dosificações tais que a maior parte do adubo se perde por lixiviação. O solo se transforma em simples substrato hidropônico. Os rios e lagos morrem pela eutroficação. Nestas condições é impossível evitar desequilíbrios metabólicos nas plantas cultivadas. Não somente sofre o valor alimentício, mas aumenta também a susceptibilidade às enfermidades e pragas. Aparece então o vendedor de pesticidas e começa novo ciclo, ainda mais anti-ecológico e mais pernicioso.
Há uns trinta anos havia, talvez, uma dúzia de produtos fitosanitários no mercado e seu uso era relativamente restrito. Predominava a procura de soluções biológicas, ou seja, ecológicas, para os problemas das pragas e enfermidades dos vegetais cultivados. Os agrônomos e sanitaristas procuravam combater as pragas pela introdução ou proteção dos inimigos naturais, ou predadores destas. Nos métodos de cultivo procurava-se levar em conta as condições que dificultavam a sobrevivência da praga e favoreciam o predador. Os geneticistas selecionavam variedades robustas e resistentes. O camponês tradicional baseava-se em sabedoria ancestral que consistia, em geral, em métodos que respeitavam até certo ponto os equilíbrios naturais e que eram, por isso, permanentemente sustentáveis. Mas, com a descoberta do DDT durante a última grande guerra, esta situação começou logo a alterar-se profundamente. Era muito mais fácil aplicar venenos que observar a Natureza e pensar em termos ecológicos. A química tomou conta da agricultura. Hoje o índice de produtos fitosanitários americano contém uns 650 herbicidas, 750 inseticidas, 600 fungicidas e mais uns 550 produtos diversos, num total de cerca de2.500 produtos, sem contar os produtos compostos que contém várias substâncias ativas. O índice geral que contém todas as marcas de produtos simples e compostos registra mais de 10.000 produtos. No índice alemão podem contar-se cerca de 1.100 produtos e o índice francês enumera ao redor de 1.400 produtos ( situação de 1969). Mas estes índices nunca estão completos, cada ano aparecem centenas de produtos novos.
Se para o técnico especializado é difícil manter-se a par desta inundação, imaginemos a situação do agricultor. A própria dona de casa está hoje comprando muitos destes produtos na estante do supermercado, ao lado da manteiga e da goiabada.
Todos estes venenos, entre eles os venenos mais violentos até agora desenvolvidos pelo homem, estão à disposição de qualquer irresponsável. Qualquer criança pode comprá-los sem receita na loja da esquina. Qualquer caboclo analfabeto se acha com o direito de largar os biocidas mais fulminantes em qualquer ecossistema sem a menor preocupação. Qualquer prefeito de cafundó, para combater mosquitos ou borrachudos, envenena banhados ou arroios, se considera muito progressista quando aplica alguicidas ou herbicidas num lago para matar algas ou aguapés. Os plantadores de arroz não hesitam diante do uso de iscas envenenadas com inseticidas persistentes para livrar-se dos marrecões. Em termos ecológicos isto equivale a entregar bombas atômicas ao público para que as utilize em suas disputas pessoais.
Convém mencionar que, ao contrário do que acontece com os fabricantes de outros ramos, os fabricantes de pesticidas, nos rótulos e folhetos explicativos, deixam bem claro que se isentam de qualquer responsabilidade por eventuais conseqüências desfavoráveis do uso indevido e, o que é mais interessante e significativo, também do uso devido de seus produtos. Entregam toda a responsabilidade ao comprador. Mas o público não costuma ler estas advertências em letra pequena, como não lê as cláusulas escondidas das apólices de seguro.
Na indústria química o ramo dos pesticidas é hoje um dos mais importantes, com taxas de crescimento fabulosas. As grandes casas internacionais fazem enormes investimentos na pesquisa e conquista de mercados. Ali trabalham milhares de técnicos, químicos, biólogos, farmacólogos, agrônomos e um exército ainda maior de comerciantes. As indústrias tem suas próprias estações experimentais com recursos ilimitados e ainda se servem das estações do estado e de particulares, todas ansiosas em participar nesta cornucópia de remédios fáceis.
A medida que aumenta o mercado e, uma vez existentes as grandes capacidades de produção, procuram-se sempre novas possibilidades de aplicação. Em minha atividade dentro da indústria tive a oportunidade de ser confrontado, inclusive, com folhetos técnicos que recomendavam a destruição de minhocas com chlordano, um hidrocarboneto clorado com todos os inconvenientes do DDT. Assisti a discussões em que agrônomos, a serviço da indústria, homens aparentemente inteligentes, propunham como uma nova idéia genial a aplicação no bosque de um herbicida já fracassado na viticultura devido à sua persistência. Este herbicida matava as vinhas anos depois de sua aplicação porque descia lentamente no solo. Para que propunham eles estes herbicidas no bosque? Para acabar com a vegetação rasteira e facilitar assim o trabalho do caçador que veria melhor a lebre!
Vejamos um caso mais nefasto de conquistas de novos mercados. Trata-se do caso dos "defoliantes" no Vietnam. "Defoliantes", neste caso é apenas um eufemismo para uma arma abominável. Trata-se de herbicida, como o 2,4-D, o 2,4,5-T e o pichloram, que são usados em dosificações pelo menos dez vezes superiores às agrícolas, tornando-se assim herbicidas totais. Dezenas de milhares de km² de florestas, sem falar das lavouras, foram assim definitivamente destruídas. Grandes extensões de mangue desapareceram para sempre. Os manguesais são o resultado de equilíbrios frágeis. Destruídos, o dano é irreparável. Os vietnamenses eram uma das poucas civilizações culturalmente elevadas que sabiam viver em relativa harmonia com o bosque. A recuperação dos estragos causados levará séculos. A "defoliação", que teria como fim apenas tornar visíveis os soldados inimigos, acabou não somente com o bosque, mas com toda a fauna dele dependente. Destruiu-se também uma civilização milenar.
Voltando ao agricultor, ele está hoje tão condicionado e o aparelho comercial continua com todos os meios a indoutriná-lo, que já não concebe agricultura sem química. Já não mais espera o aparecimento da praga. As aplicações são feitas segundo um calendário fixo. Não somente ele emprega veneno onde seria desnecessário, ele tende sempre a abusar das dosificações.
O raro técnico que se atreve a sugerir que em determinada situação seja talvez melhor não tratar, ou usar menos produtos, é automaticamente considerado mau técnico. Sempre estará presente o técnico da concorrência com uma boa receita de venenos sempre mais potentes e em combinações sempre mais complexas. Algo parecido ao que está acontecendo na medicina. Muita gente sai do consultório decepcionada se o médico não receitou nada, ou pouco. Este médico não pode ser bom.
E isto nos leva a uma situação interessante e bastante imoral que existe nesse negócio. Imaginem quanto remédio estaríamos tomando se o farmacêutico fosse quem escrevesse a receita. Para os produtos fitosanitários a quase totalidade do assessoramento técnico está em mãos das próprias casas fabricantes e do comércio. É claro que fazem todo o possível para aumentar as vendas e para que não vinguem outros métodos.
Outro exemplo concreto: uma grande casa alemã, fabricante de um herbicida que na Europa deu excelentes resultados na cultura da beterraba açucareira, queria introduzir este produto na África do Norte. O técnico da casa, estacionado na região, argumentou que, por razões sociais e técnicas, o produto não interessaria. A substituição da capina manual pela química deixaria sem trabalho milhares de fellahs para os quais isto significaria a fome. Este argumento não interessou. Se o argumento social não pesava, seria de supor que o argumento técnico fosse decisivo. Não era.
Nas culturas açucareiras européias predominam os inços dicotiledônios, as plantas herbáceas, contra as quais este produto, à base de pyrazon, trabalha muito bem. Na África do Norte são as gramíneas que constituem problema na beterraba. Contra estas a substância não tem efeito. Um graminicida barato como o TCA seria sufiente. A casa passou então a recomendar uma fórmula especial na base da dosificação normal, muito cara, do pyrazon mais a quantidade necessária de TCA para matar as gramíneas. O pyrazon nesta fórmula é enfeite, não dá vantagem nenhuma ao agricultor, mas encarece consideravelmente o tratamento, além de constituir uma poluição totalmente desnecessária. Obsolecência planejada até na agricultura.
Quando falamos no aspecto social tocamos um aspecto muito grave e sempre esquecido da chamada Revolução Verde. Já que se tornou moda falar da "poluição da pobreza" convém mencionar que muitas das técnicas modernas contribuem para esta pobreza. As modernas técnicas de racionalização do trabalho agrícola surgiram todas nos Estados Unidos ou na Europa. Dentro das estruturas econômicas específicas destas regiões estas técnicas contribuem efetivamente ao enriquecimento social, se bem que a curto prazo. Os custos ambientais ainda não estão computados. O dia em que a Natureza apresentar a conta ela será brutal. Na Europa e nos Estados Unidos, entretanto, toda economia de mão de obra é uma vantagem social. Mas será que isto é o caso na Índia ou na América Latina?
Nos países super-industrializados a pouca mão de obra ainda existente no campo é bem paga e suas rendas aumentam com o incremento da técnica. Na Colômbia ou no Irã, quando aparece o trator, a combinada e o herbicida no campo, explode a favela na cidade. Só o agricultor que já era forte, o homem digno de crédito bancário, pode tirar proveito das novas técnicas. O camponês e o peão perdem a corrida, e vão para a cidade engrossar as massas amorfas de marginais. Naqueles países onde ainda existe o camponês tradicional, apegado à terra, com suas práticas milenares, a Revolução Verde está causando o desmoronamento de estruturas sociais estáveis. O preço é o descontentamento e a frustração das massas com conseqüente instabilidade política.
Durante os últimos trinta anos, a quase totalidade da pesquisa dirigida a resolver os problemas das pragas e enfermidades dos cultivos tomou o caminho da química. É natural. A finalidade da maior parte desta pesquisa não era resolver os problemas da agricultura ou da sociedde, era a de resolver os problemas da indústria. Mas os técnicos agrícolas, mesmo quando não ligados à indústria, de tal maneira se deixaram empolgar pelas soluções simples da química que quase se esqueceram de que há outros caminhos.
Acontece que na química é fácil movimentar muito dinheiro, fazer crescer grandes capitais e burocracias. As grandes casas podem dar-se o luxo de gastar até dezenas de milhões de dólares para descobrir e preparar para o mercado um novo produto de grande aceitação. Este produto, uma vez introduzido, permitirá ganhar centenas de milhões. Mas este problema não é exclusivo das chamadas sociedades capitalistas, é tão grave nos países que se dizem socialistas como entre nós. Lá descobrem menos produtos, mas usam os produtos ocidentais com o mesmo abandono e a mesma irresponsabilidade ecológica.
Por outro lado, para elaborar um método de combate biológico, também se torna necessário gastar grandes somas, movimentar exércitos de cientistas e técnicos por vários anos. Mas, quando o método está pronto, em geral, só quem lucra é o agricultor, nossa saúde e a Natureza. São raros os métodos biológicos que permitem a terceiros ganhar grandes somas.
É claro que este tipo de trabalho não atrai grandes capitais. Os métodos biológicos e integrados terão que ser desenvolvidos pelas estações e instituições do Estado, pelas universidades, pelas grandes cooperativas ou grandes empresas agrícolas particulares. Os países chamados socialistas perderam uma grande chance. Em vez de seguir o exemplo ocidental, deveriam ter se dedicado à pesquisa biológica. Teriam hoje algo a oferecer.
Os métodos brutais do combate químico, pela sua simplicidade, pelo enfoque simplório de simples erradicação, tem uma atração toda especial para os burocratas. Estes burocratas não conhecem, não querem, nem tem capacidade de conhecer a complexidade dos fenômenos em jogo. É muito fácil e parece tão científico falar em termos de tantos cm³ por litro de tal ou qual ingrediente ativo, aplicado em tantos litros por hectare, de preferência por avião, para eliminar este ou aquele inimigo. Não há atração nenhuma em falar em termos de dinâmica de populações, de interação entre praga e predador, em falar na necessidade da conservação de certas comunidades naturais, da necessidade de rotação de culturas, de manutenção de uma certa homeostase natural através de ecossistemas artificiais mais complexos. Tampouco é interessante falar da necessidade de proteção da saúde do solo. É muito mais fácil abrir concorrência de preços para mil toneladas de DDT que estabelecer uma rede de laboratórios, de centros de pesquisa ecológica e de assessoramento. A química oferece soluções tão simples. Todoburocrata, quer seja ele capitalista ou comunista, prefere sempre soluções simples.
Outro importante incentivo para a agroquímica é que ela se presta tão bem para a corrupção. Vejamos um exemplo. Em um determinado país Norte-africano, durante dois mil anos não se empregou nenhum inseticida nas oliveiras. Com os equilíbrios naturais ainda existentes, os danos por pragas de insetos eram os mínimos e aceitáveis. Até que um dia um funcionário do Ministério da Agricultura resolveu importar "progresso". As companhias logo se precipitaram sobre ele com ofertas de gordas comissões em conta bancária Suíça. A firma que ofereceu a melhor comissão recebeu o pedido que, naturalmente, era bastante grande, calculado, simplesmente, em base às estatísticas quanto a número de árvores. Surgiu assim um interesse criado. As árvores são agora tratadas regularmente. Aparecerão novas pragas e aumentará o número de produtos empregados. As colheitas não aumentam com isso, apenas torna-se mais difícil a vida do agricultor pequeno.
Assim continuamos todos a envenenar cada vez mais o nosso belo Planeta e a nós mesmos.
Levamos mais de vinte anos para dar-nos conta do perigo que representa a introdução do DDT na biosfera. Muitos dos danos até agora conhecidos já são irreversíveis e não sabemos o que está por vir. Assim mesmo a irresponsabilidade continua. Apesar da proibição em vários países, ainda não fecharam as fábricas de DDT. A Organização Mundial da Saúde das Nações Unidas, em sua campanha antimalarial, compra DDT de fábricas que já não podem vender em seus próprios países. Mas já há excessões. A Alemanha ampliou recentemente a legislação que proibia o uso do DDT, incluindo a proibição da fabricação e da exportação.
Se, a partir de amanhã, não se usasse mais um kilo de DDT, ainda assim, por muitos anos, o escoamento desta substância dos continentes aos mares continuaria em aumento, antes de começar a diminuir e não sabemos se a quantidade já existente nos oceanos já não desencadeou processos irreversíveis. Segundo um estudo recente, os peixes de todos os oceanos estão com entre 0,5 e 5 ppm de DDT em seus organismos. Até os pingüins da Antártida, lugar onde nunca foi aplicado o DDT, estão afetados. A águia calva (Bald Head Eagle), pássaro do emblema dos Estados Unidos está em vias de extinção. O pelicano do Golfo do México praticamente desapareceu, o da Califórnia está no mesmo caminho. Muitas espécies seguirão. No Rio Grande do Sul as aves de rapina já começaram a tornar-se raras.
O grande oceanógrafo Cap. Jacques Ives Cousteau, num depoimento que prestou num simpósio das Nações Unidas, expressando suas preocupações pelo estado dos oceanos, declarou que durante os últimos vinte anos, a vitalidade dos mares havia diminuído em 30 - 50% em termos de vida animal e vegetal. Em declarações mais recentes, renomados ecólogos americanos calculam que a perda de biomassa nos oceanos é de cerca de 40%. Naturalmente, os pesticidas persistentes não são os únicos biocidas a poluírem os oceanos. O homem transformou os oceanos em grandes lixeiras. Não sabemos até que ponto vai a capacidade de autodepuração.
Os hidrocarbonetos clorados, dos quais o DDT é apenas o mais conhecido, são muito persistentes. Calcula-se que a meia vida do DDT em condições médias é de cerca de 10 anos, ou seja, depois de 10 anos ainda circulam na biosfera 50% da quantidade introduzida. Além de sua persistência estas substância se concentram através da cadeia alimentar. O DDT é quase insolúvel na água mas é acumulado pelas bactérias e algas. Quando estas são consumidas pelo seguinte elo da cadeia, pelos protozoários, verifica-se nova concentração. Cada protozoário, durante sua vida, consome centenas, talvez milhares de algas e bactérias, retendo o DDT destas. O protozoário, por sua vez, é devorado pelo alevino, girino, pequeno crustáceo, pelos vermes, moluscos e insetos aquáticos. Mas a história não termina aí. Todos estes animaisinhos acabam no estômago de organismos maiores: no peixe pequeno que é devorado pelo maior, e assim por diante, até chegar ao peixe que consumimos ou nas aves aquáticas e outros carnívoros. Em cada caso verifica-se uma concentração que pode ser de uma ou várias ordens de magnitude. O que começou com concentrações insignificantes, aparentemente sem perigo algum, termina assim numa concentração que pode ser fatal. No caso do pelicano e de outras aves de rapina é suficiente para interferir no metabolismo do cálcio a ponto de impedir a reprodução. As fêmeas põem ovos sem casca, ou com casca muito fina, que esmagam ao chocar. Convém lembrar que nós humanos estamos na cúspide da pirâmide alimentar.
Esta concentração biológica é também a causa do desaparecimento do predador, ao mesmo tempo que a praga consegue tornar-se resistente. Durante os primeiros tratamentos com uma nova substância tóxica, a praga morre naqueles lugares e nas condições em que for atingida por doses letais. Fora de área tratada, porém, nas margens desta e mais além, ela se encontra exposta a doses sub-letais. São estas doses sub-letais que permitem a seleção natural de linhas resistentes. Elas constituem, por assim dizer, uma vacina que opera a nível populacional. Para o predador a situação é bastante diferente. O predador morre na zona letal e morre quase sempre na zona sub-letal e além. Isto porque, além da dose sub-letal que recebeu diretamente, ele recebe e acumula em seu organismo as doses sub-letais absorvidas pelas presas. O acúmulo se torna letal para ele. Desaparece antes que possa aparecer resistência.
O que acontece com os hidrocarbonetos clorados pode acontecer com todos os venenos não biodegradáveis e cumulativos. Convém lembrar a catástrofe da Baía de Minamata, no Japão, onde houve mortes e sérias lesões cerebrais, assim como danos teratogênicos pelo consumo de peixes com altas concentrações de mercúrio. Neste caso o mercúrio provinha dos efluentes de certas fábricas de plásticos, mas o mercúrio também é introduzido na biosfera por certos tratamentos agrícolas, pelos fungicidas mercuriais. Em nossas regiões tritícolas foram enormes os danos às aves silvestres pelos fungicidas mercuriais no tratamento da semente. Já tivemos também o escândalo da semente tratada com fungicidas mercuriais que foi misturada com trigo de consumo.
O mercúrio constitui um perigo, se não quantitativamente, pelo menos qualitativamente, muito mais grave que o DDT. O mercúrio como elemento, é totalmente indestrutível na Natureza e não sabemos quanto tempo continuará circulando nos sistemas vivos. Muitos dos belos lagos suecos estão hoje interditados à pesca devido à contaminação com mercúrio. Nos Estados Unidos foram condenadas e destruídas grandes partidas de atum pescado em alto mar por estar seriamente contaminadas com mercúrio. Os grandes rios europeus estão todos contaminados. Entre nós este problema está pouco estudado, mas levando-se em conta o fato de estarem sendo usados fungicidas mercuriais em quase toda a lavoura tritícola no tratamento da semente, mais a poluição industrial, é possível que a situação já seja bastante grave.
A única razão porque ainda predominam os produtos mercuriais no tratamento da semente é o preço; eles são mais baratos que outros fungicidas. Aliás esta é também a razão por que se continua usando o DDT.